Eu não tenho a vitalidade da morte
Ela:
Nasci só, ate o momento em que o encontrei. Ele me encontrou. Eu também.
A aquela altura, eu não poderia nunca distinguir o que seria aproximação, nem de perto.
Meu primeiro espasmo deu-se quando fui lançado nas costas de um cavalo, que chicoteado saiu galopando muito destinado a suas próprias ambições. Aquilo foi desejo do corpo. Creio eu que quando desaprendemos a ouvi-lo ele se revolta e sucumbe as nossas vontades, minha vontade.
Era um novo palco, um completo segundo nascimento seguido pela memória da vida anterior, aquilo que me sustentava toda a espinha.
Em pouco tempo percebi que o que me mantinha em pe pelo excesso me puxava para baixo, e ou eu largava aquilo ou sofria a nova viagem inteira. O que eu apenas não sabia era que mesmo evitando o sofrimento continuaria. Mesmo sacando toda a bagagem vinda por engano, fruto do desejo do corpo, eu a carregaria em sombra.
Aprendi a assobiar.
Ele:
A pouco tempo ela me escreveu; não acrescentava muito as perguntas que lhe havia feito, e em uma outra conversa soltou sobre possuir, seu processo doentio. E então eu entendi tudo. Daquilo, daquela parte, só dali. E então, hoje passei a respeitar seu modus operandi. 'A distancia estava resignada nossa relação mesmo que eu mudasse de idéia depois.
-
Quando ouvi minha voz, ecoada no som da garganta dela, estremeci ao ponto do medo. Uma vez, em um dos ensaios da nova banda, o novo técnico-filosofo aproximou-se dizendo sobre o encanto de se ouvir a propia voz. Mais atordoante que ver-se a si propio era dobrar sua propia vibração, ouvir-se, poder ocorrer junto a ela.
Como uma gravação, mantínhamos nosso mundo; tudo que eu encontrava também lhe era útil, tudo que dizia lhe era interessante, tudo que buscava lhe era também pertinente. Eu, em minha alma não oriental vi uma espécie de ironia do amor. Passei a trazer em presença algo que sempre chamei. Referencia viva me tornei ate ser totalmente sucumbido, enquanto ouvia minhas próprias palavras, frases, expressões, gestos e sonhos xerocados e organizados por um outro corpo. Ela era melhor na persuasão, eu apenas vivia a minha. Percebi que vivia. Neste ponto eu a agradeci, eternamente. Ela me agradeceu por poder me ouvir cantar.
Ela e Ele:
Vivia porque me vi em um reflexo, me vi naqueles tortos resquícios dúbios visuais. Catava cada um deles e montava uma imagem banalmente cubista de mim mesma. Mas me perdia, pois sentia a presença do assalto novamente, daqueles intrusos agora sem mascaras que apareciam em um destes cacos e arrancavam o que tínhamos outrora "de valor" naquela casa, sem podermos nos defender, já que com armas em mãos eles detinham o poder.
Um inconveniente da metáfora e eu a transformei em uma assaltante, não fui capaz de ver a admiração daquilo tudo, via um acidental falta de respeito naquela atitude, desde que sua voz se erguia adiante para interpretar a minha que estava nascendo.
Os dois:
O cano da torneira perdia vazão, a cada rotatória percebia que escorria menos água, talvez pela sujeira acumulada das enchentes; o lodo, o lixo e todos os animais em putrefação que a água trazia de volta pro homem.
Talvez eu tivesse me banhado naquelas águas turvas com ela, talvez saísse mais limpa, mais cega. Parece que toda vez que vejo meu grau aumentou, e mesmo trocando as lentes a poucos meses, parece que perdi visão de anos. Envelheci dos olhos aquilo que ficou suspenso, tudo porque não me banhei naquela água de prata.
Naquela época eu me lembro dos uivos incessantes que eram regurgitados em minhas orelhas durante o que seriam resquícios das noites no Alaska. Eu me lembro da perda e da perda seguida pela perda, enfim, o que me era excesso mesmo sendo pura constatação.
Eu havia perdido a língua dos cães, havia perdido a língua dos homens, já que ao lado de ambos não soube reagir a perda. Ao tentar salvar ambas, ambas as perdi. Agora me sou completamente dependente da língua do corpo, da língua nua da vibração do corpo, uma língua que eu nunca tive conhecimento.
Com as palavras em outra língua não minha, minha poesia se tornou leve, como o primeiro cavalo que vi rabiscado no céu antes de galopar.
Percebi que ou eu me ajeito com o que penso enxergar do mundo, ou morro de saudade, daquilo que moldei como meu, das minhas possessões que outrora sustentavam meu mundo, mesmo que já o tenha perdido, na busca do meu, busca mesma que a dela, que a dele, só que de modos distintos.
Ou eu me ajeito ou mato a todos, e pior que assaltante seria se fossem assassinos, e eu não estivesse mais aqui. E ja nao estou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário